Painéis

(P57)

Passados e presentes com futuro: memória e história, património e construções identitárias.

Localização Sala 2, Ciências Veterinárias (Map 30)
Date and Start Time 09 September, 2013 at 09:30

Co-Coordenador

Sónia Vespeira de Almeida (CRIA - FCSH - Universidade Nova de Lisboa) email
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Resumo Curto

Pretende-se fomentar o debate sobre os processos e agentes da patrimonialização e da construção das memórias colectivas, numa perspectiva de que os objectos, narrativas e práticas do passado também participam no futuro dos indivíduos e das comunidades.

Resumo Longo

O objectivo deste painel é fomentar uma reflexão sobre os processos e agentes da patrimonialização e da construção das memórias colectivas, numa perspectiva de que os objectos, narrativas e práticas do passado também participam no futuro dos indivíduos e das comunidades.

Enquanto antropólogos, lidamos longamente com memórias colectivas (Halbwachs, 1925, 1950) com classe e género, que variam conjunturalmente em escalas diversas; que podem incomodar ou dar alento, ficar retidas ou ser exibidas, ser reconstruídas e re-significadas, banidas e renegadas, utilizadas para libertar ou capturar, por períodos mais ou menos duradouros; que podem ser homogeneizadas, consensualizadas ou resgatadas por terceiros, penosas ou festivas, inventadas e retransformadas, localizadas e enquadradas em mapas conhecidos; que podem ser recuperadas ou refletir as topografias dos poderes, valorizar-se ou depreciar-se, ser introduzidas num mercado patrimonial, ou resgatadas pela aura da autenticidade.É sobre este tipo de fenómenos que pretendemos reflectir e debater.

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Comunicações

Memórias da Emigração Clandestina

Autor: Aurizia Anica (Universidade do Algarve)  email

Short Abstract

Pretende-se interpretar os significados atribuídos pelos atores sociais às suas experiências vividas de emigração clandestina do Algarve para a Andaluzia e Marrocos a partir de narrativas e memórias orais produzidas pelos atores envolvidos no processo.

Resumo Longo

O Algarve pelas suas características geomorfológicas e históricas manteve desde a Idade Média uma rede de contactos e relações económicas externas, em especial no âmbito do golfo luso-hispano-marroquino, rede que persistiu na longa duração. O comércio, a agricultura e a pesca animaram o golfo de Cádis, ao qual o Algarve continuou estreitamente ligado mesmo na época contemporânea. A emigração clandestina e o contrabando participavam do dinamismo socioeconómico deste complexo histórico-geográfico, tendo permanecido socialmente aceites e relativamente tolerados no Estado Novo (M. Baganha, 1996; 2003; V. Pereira, 2005; 2009). Na época contemporânea, até meados de novecentos, os movimentos migratórios, incluindo os clandestinos, com origem no sotavento do Algarve tomaram duas direcções principais: pela via terrestre e fluvial alcançava-se o Alentejo e a Andaluzia; a navegação no Atlântico permitia o desembarque nos portos andaluzes, gibraltinos e marroquinos, ou mesmo a demanda de destinos longínquos, entre os quais avultou a Argentina (Anica, 2003: M. Borges, 1997).

Pretende-se interpretar os significados atribuídos pelos atores sociais às suas experiências vividas de emigração clandestina do Algarve para a Andaluzia e Marrocos a partir de narrativas e memórias orais produzidas pelos atores envolvidos no processo.

Recorre-se a uma metodologia etno-histórica, interpretativa e comparativa, sendo o corpus documental constituído por depoimentos registados nos processos abertos contra os emigrantes ilegais nos tribunais judiciais do sotavento algarvio, nos anos 40, 50 e 60 do século XX, e por memórias orais recolhidas pelas autoras, no presente ano, junto de pessoas que viveram a experiência da emigração clandestina no mesmo espaço/tempo.

Primeiras fases dos itinerários migratórios da emigração portuguesa para França - A arte de "dar o salto", primeira habitação e primeiro trabalho

Autor: João Baía (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas)  email

Short Abstract

A partir da análise das narrativas de vida e dos itinerários migratórios, procurar-se-á compreender as estratégias usadas para ultrapassar os constrangimentos à saída do país e para ultrapassar as dificuldades sentidas durante o primeiro período em França.

Resumo Longo

Nesta comunicação pretende-se apresentar alguns resultados do projecto "Além do fracasso e do maquiavelismo. A emigração irregular portuguesa para a França, 1957-1974". A partir da realização de 72 entrevistas semidirectivas a emigrantes, passadores e guardas-fiscais, durante os meses de Julho, Agosto e Setembro de 2011, nos distritos de Coimbra, Castelo Branco, Vila Real, Bragança e Porto, pude aceder a várias narrativas de vida, identificar e analisar as diferentes fases dos itinerários migratórios. Maria Beatriz Rocha-Trindade considera que os itinerários migratórios dividem-se em várias fases e em vários momentos: o momento da tomada de decisão de partir, a preparação da partida, a viagem, a instalação, a fixação e o "imaginado regresso à origem, que a ter lugar iria fechar o ciclo migratório" (Rocha-Trindade, 2010). As narrativas de vida permitem perceber as consequências das políticas migratórias de Portugal e de França, a "governamentalidade" (Foucault) e a "arte de não se deixar governar" (Scott).

Focalizar-se-á as três primeiras fases do processo migratório iniciado na década de 60 e em direcção a França. Procurar-se-á problematizar a porosidade das fronteiras dos papéis desempenhados pelos entrevistados, que muitas vezes se confundiam e chegavam a sobrepor-se. Para poder perceber melhor o actual fluxo migratório, será útil analisar e compreender as primeiras fases dos itinerários migratórios no período referido. Este estudo pode ajudar a visibilizar uma parte menos conhecida dos processos migratórios, que por vezes é ocultada pelos próprios emigrantes quando retornam ao país de origem definitivamente ou temporariamente.

"Espírito nacional e brios patrióticos": memória épica e pertença nos discursos associativos e da escolarização dos macaenses na diáspora.

Autor: Rui Simões (Escola Superior de Comunicação Social)  email

Short Abstract

Discute-se a relação entre a evocação nacionalista, patente na educação e na actividade associativa das comunidades macaneses dispersas na Ásia após a Iª Guerra do Ópio, e o seu posicionamento, estratégico, face aos contextos cosmopolitas em que se situam, no período até ao final do Séc. XIX.

Resumo Longo

Após a Iª Guerra do Ópio, a comunidade macaense expande-se pelos chamados Portos da Ásia, abertos ao trato internacional e a uma intensa vida social e cultural. As diferentes comunidades nacionais e empresas de matriz europeia enquadram a sua actividade em demarcações estratégicas de proximidade e distância, recíprocas, patentes na sua sociabilidade, associativismo, escolarização, imprensa e vida religiosa. O presente trabalho procura explorar as funções de evocação e de celebração, associativas e produzidas no quadro da escolarização, dos referentes nacionalistas - nomeadamente na épica e na língua portuguesa - como formas de desenhar a pertença e o devir das comunidades luso-asiáticas, com especial ênfase para o período que decorre até ao final do século XIX.

Identidade, alteridades, saberes tradicionais e o patrimônio cultural para as quilombolas de Chapada dos Guimarães, Mato Grosso

Autor: Sonia Regina Lourenço (Universidade Federal de Mato Grosso)  email

Short Abstract

Esta comunicação versa sobre a experiência social de duas comunidades quilombolas do estado de Mato Grosso e sua atuação nas ações de mapeamento e identificação dos bens culturais considerados por eles como referências simbólicas de suas memórias e conhecimentos tradicionais

Resumo Longo

identificam como "comunidades remanescentes de quilombos", Lagoinha de Cima e Lagoinha de Baixo em Mato Grosso, no projeto de pesquisa e extensão Patrimônio cultural e saberes tradicionais quilombolas de Chapada dos Guimarães (PROEXT 2013) e sua atuação como sujeitos de conhecimento nas ações de mapeamento e identificação dos bens culturais considerados por eles como referências simbólicas de suas identidades, memória e conhecimentos tradicionais. Estes conhecimentos situados no plano das cosmologias, das narrativas, da territorialidade e das formas expressivas ético-estéticas ampliam a noção de patrimônio cultural "material" e "imaterial" ressemantizando-a para um entendimento que interpela as políticas públicas do Estado existentes para a "cultura" e o "patrimônio", incidindo sobre tais políticas, a partir de outras referências acerca da alteridade como as formas de socialidades, as relações entre identidade e alteridade. Enfim, formas de ser e estar no mundo que buscam o reconhecimento de seus territórios tradicionais.

Usos e apropriações do património alimentar: o fumeiro de Vinhais (Portugal)

Autor: Manuel Teles Grilo (Univ. Nova de Lisboa)  email

Short Abstract

Através de etnografia sobre a produção e consumo de alimentos de origem certificada em Trás-os-Montes (Portugal), observaremos a relevância das narrativas sobre o património alimentar na definição de políticas regionais e globais; bem como os seus efeitos e apropriações pelos diversos intervenientes

Resumo Longo

O fumeiro de carne de porco de Trás-os-Montes é hoje, na sua generalidade, um produto amplamente divulgado e reconhecido em Portugal, protegido por mais de uma dezena de certificações de origem da União Europeia. Considerado património, é objectivado como um conjunto alimentar transmissor de valores culturais associados à região, como a tradição, a natureza, o saber fazer rural, ou o bem-comer. Este tipo de representações do passado (essencializantes, neutras), actuam no presente como legitimadoras de todo um conjunto de movimentos e políticas de promoção regional assentes no património alimentar e na sua salvaguarda.

Nesta comunicação observaremos, a partir de etnografia realizada na região de Vinhais (Bragança) sobre o trajecto social do fumeiro regional, como operam os processos de patrimonialização e como este estatuto (o de património) faz do fumeiro um importante recurso simbólico e material da região; desigualmente disputado por diversos actores e instituições.

Tentaremos perspectivar, a partir de várias escalas da vida social, as divergências e complexidades associadas: 1) aos impactos que as políticas do património imprimem naqueles que ainda inserem o fumeiro nas suas rotinas anuais; 2) às formas que os diversos intervenientes encontram para, através de um acesso desigual à delimitação e ao controlo do património, negociar os seus posicionamentos sociais através do mesmo; 3) à integração deste processo numa dinâmica global de afirmação das regiões periféricos e rurais europeias, ligada à penetração de uma agenda neo-liberal através de sectores como o agro-alimentar ou o turismo.

"O que eu era …": Corpo(s) e memória(s ) e lúdico(s)

Autor: Ana Piedade (Instituto Politécnico de Beja)  email

Short Abstract

O tempo da memória é eminentemente social e cíclico, repercutindo-se no modo se recorda e recupera a lembrança. A memória dos mais velhos baliza o tempo em função das mudanças operadas no corpo e recorda o espaço nos termos em que o seu corpo podia apropriá-lo.

Resumo Longo

Parte das atividades lúdicas ditas tradicionais desapareceu e existe unicamente nas memórias dos mais velhos, nas lembranças que eles têm do modo como os seus corpos se moviam e resistiam para as praticar e nas descrições mais ou menos estáticas e formais que nos chegam pelo documento escrito e pelo suporte audiovisual.

O corpo enquanto suporte de lúdico é indispensável para a sua prática, apresentando-se frequentemente, para os indivíduos com idades mais avançadas de uma forma "mitificada". Não obstante estar envelhecido é sentido/evocado como ideal e jovem. As qualidades do corpo perfeito (masculino e feminino) são evocadas no modo como as atividades lúdicas da infância e adolescência são lembradas e (re)atualizadas. De facto, vitalidade, saúde, força, agilidade, resistência, são características/qualidades evocadas pelos mais velhos quando recordam o seu desempenho em jogos e brincadeiras de infância, adolescência e enquanto jovens adultos.

Os corpos constroem-se de modo diferente em função dos contextos sociais, culturais, e económicos. E variam em função do género. A infantilização da adolescência não era possível num tempo em que a vida de trabalho se iniciava aos oito anos ou pouco mais - os corpos de criança eram, em alguns casos, abreviados. Como se apressava a entrada no mundo lúdico dos homens e das mulheres. A vida ganha hoje, por via da memória dos mais velhos, calendários e espaços próprios, definidos em função das mudanças operadas nos corpos como em função das atividades lúdicas que se praticavam e dos grupos de brincadeira a que se pertencia.

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