Painéis

(P07)

Proximidade e distância

Localização A1.10, Reitoria/Geociências (Map 10)
Date and Start Time 09 September, 2013 at 09:30

Co-Coordenadors

Andre Novoa (University of London) email
Luís Bernardo (Humboldt-Universität zu Berlin) email
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Resumo Curto

Este painel propõe explorar duas dimensões geográficas que, quando em acção, extravasam em muito a disciplina da geografia: proximidade e distância. Estas duas dimensões definem-nos a vários níveis e escalas, actuando sobre nós das mais variadas formas.

Resumo Longo

Este painel propõe explorar duas dimensões geográficas que extravasam em muito a disciplina da geografia: proximidade e distância.

1. Definem-nos enquanto indivíduos. Por exemplo, saber a que a distância nos posicionamos em relação a outros indivíduos - de outras classes sociais, etnias ou género - informa a nossa maneira de estar no mundo, gerando sob nós mesmos certos estigmas ou, por oposição, certas benesses.

2. Definem-nos enquanto comunidades. As proximidades que construímos com outras comunidades são factores-chave na produção social. Muitas vezes constatamos que determinada comunidade gera uma maior proximidade com uma congénere de outro continente do que com uma sua vizinha geográfica. Tal forma de estar no mundo actuar sobre nós de forma incisiva.

3. Definem-nos enquanto nações. Avaliar quão perto nos dispomos em relação a outras nações é um exercício fulcral a nível social. Perceber se queremos e fazemos parte de estruturas supranacionais ou se, por outro lado, trabalhamos na fabricação de isolamentos é decisivo para avaliar o nosso rumo.

4. Definem-nos enquanto culturas. Num mundo globalizado, saber se abraçamos outras "formas de vida" ou se as empurramos para a obscuridade; saber se aceitamos outras culturas dentro da nossa ou se as negamos são debates chaves do mundo contemporâneo.

Este painel propõe juntar trabalhos que possam contribuir para estes debates, promovendo também uma maior "proximidade" entre a antropologia e a geografia cultural.

Chair: Andre Novoa
Debatedor: Luis Bernardo

This painel is closed to new comunicação proposals.

Comunicações

Proximidade: uma geosofia crítica

Autor: Andre Novoa (University of London)  email

Short Abstract

Nesta comunicação, socorrer-me-ei do conceito de “geosofia crítica” (critical geosophy) de Tim Cresswell para explorar a temática da proximidade. Proponho que reflictamos sobre como a produção de conhecimentos sobre proximidade informa e molda a nossa experiência no mundo.

Resumo Longo

Esta comunicação servirá como mote introdutório ao painel "Proximidade e distância". Nela, socorrer-me-ei do conceito de "geosofia crítica" (critical geosophy) de Tim Cresswell para explorar a temática da proximidade. Influenciado pelos ensinamentos de John Kirtland Wright, o autor utiliza o termo para se referir a um estudo sistemático de como certos conceitos geográficos estruturam, moldam e desencadeiam o nosso quotidiano e as nossas práticas mundanas. Por exemplo, o autor sugere que determinadas ideologias de mobilidade - a mobilidade é muitas vezes conceptualizada como algo moderno, ligado ao progresso e à liberdade, ao passo que noutras circunstâncias é encarada como um perigo que deve ser estancado - informam de modo decisivo juízes, médicos, gerentes de fábricas, fotógrafos, políticos, advogados, urbanistas, etc. a moldar o mundo em que vivemos.

Creio que devemos pensar de forma semelhante a dimensão geográfica da proximidade. Proponho que reflictamos sobre como a produção de conhecimento sobre proximidade informa e molda a nossa experiência no mundo. Por exemplo, um determinado discurso sobre como a proximidade perante outras etnias é perigoso e pouco saudável interfere nas nossas práticas mundanas, seja para atravessar um passeio na rua ou apanhar um autocarro. Por outro lado, um outro discurso sobre como a proximidade com os congéneres da nossa comunidade é algo benéfico traduz-se num conjunto de práticas quotidianas concretas. Discursos sobre proximidade - e por oposição distância - informam a nossa experiência. Em jeito de introdução, é sobre estes assuntos que me irei debruçar.

O papel da aceleração do tempo na organização espacial pós-moderna

Autor: Daniela Ferreira (Instituto de Geografia e Ordenamento do Território - Universidade de Lisboa)  email

Short Abstract

O estudo apresentado analisa como é que a aceleração do tempo pode modificar a organização espacial da cidade pós-moderna através do surgimento de novas formas de mobilidade. Estas trazem consigo alterações no espaço vivido e nas deslocações quotidianas que, por sua vez, afectam os ritmos urbanos.

Resumo Longo

É frequente ouvirmos falar sobre a relação entre o território e a sociedade e como estes se influenciam mutuamente. No entanto, são poucas as vezes que se juntam a estes dois conceitos o terceiro elemento: a temporalidade. Este estudo pretende assim mostrar como a temporalidade é um dos modeladores do território urbano, alterando as suas espacialidades e contribuindo para o aparecimento de novos ritmos urbanos.

Nas últimas décadas temos assistido, sobretudo nas sociedades ocidentais, a uma aceleração do tempo. Essa aceleração tem vindo a refletir-se cada vez mais na organização espacial da cidade pós-moderna, na espacialidade dos territórios e, acima de tudo, tem contribuído para alterações nas distâncias-tempo, o que faz com que os ritmos urbanos mudem por completo.

O presente estudo aborda dois dos factores que estão intrinsecamente ligados à aceleração do tempo: as Tecnologias de Informação e Comunicação e o Transporte Rodoviário. Ambos trazem consigo um novo tipo de mobilidade. No primeiro temos a mobilidade electrónica e a nova mobilidade de capitais. Já no segundo, temos uma mobilidade física, associada ao processo de motorização que muitas das cidades têm vindo a assistir.

Será apresentado um caso de estudo que ilustra como é que o consumo do espaço pode mudar com a aceleração do tempo e ainda como este pode alterar os ritmos urbanos.

Pedro Costa e a terra ardida - Quatro filmes crioulos para fixar cinzas que não assentam

Autor: Mathilde Neves (FLUP)  email

Short Abstract

Abordagem a quatro filmes feitos a partir da terra misturada de Cabo Verde e Portugal. Pedro Costa foi à procura de fantasmas na ilha de Santiago e encontrou-os no bairro das Fontaínhas. Este cinema é um país estranho, onde proximidade e distância cabem no mesmo plano.

Resumo Longo

Pedro Costa (Lisboa, 1959) tem já uma extensa obra construída a partir da terra misturada de Cabo Verde e Portugal. Tal como Jacques Lemière o escreve: "A obra do realizador Pedro Costa, entre outras originalidades e particularidades, apresenta, no cinema português contemporâneo, a absoluta singularidade de operar um percurso entre Portugal e o seu ex-Império, neste caso entre Portugal e Cabo Verde: um percurso circulante, à vez, de Portugal para Cabo Verde e depois de Cabo Verde para Portugal." O seu trabalho baseou-se nessa circulação, levando a um profundo questionamento de si, do país em que habita, do cinema, que nele dá abrigo/luz a uma comunidade que a contemporaneidade remeteu para o subúrbio.

Em Casa de lava (1994), Cabo Verde e cabo verdianos surgem-nos enquanto espectros de um mundo desolado, que ambiciona "morrer em Sacavém". Ossos (1997) mostra o Cabo Verde que resiste nas imediações de Lisboa. N'O quarto da Vanda (2000) vamos assistindo à demolição do bairro das Fontaínhas, concentrado em restos de gente que responde pela consumição. Em Juventude em marcha (2006), entendemos que próximo e distante, vida e morte, totalidade e ruína são categorias deslizantes, impróprias para o crioulo que os filmes de Costa captam e refractam.

Cinema materialista e despojado, que apresenta os espoliados com uma beleza assombrosa, que nos obriga a permanecer na ombreira de um mundo arruinado e em permanente reapropriação, sendo que aí, nessa geografia íntima, os restos e os cruzamentos são decisivos e é fundamental ir no seu encalço.

Comer cosmopolita e comer local: proximidade geográfica e distância social nos consumos alimentares

Autor: José Sobral (Universidade de Lisboa)  email

Short Abstract

Esta comunicação debruça-se sobre a construção de dispositivos de distanciação social através da comida, que representam simultaneamente barreiras entre classes sociais próximas no espaço geográfico e pontes com outros socialmente afins, mas geograficamente mais distantes.

Resumo Longo

Esta comunicação debruça-se sobre a construção de dispositivos de distanciação social, que permitem construir delimitações separando classes que vivem no mesmo espaço geográfico. Esses dispositivos inserem-se no âmbito das práticas de consumo alimentar, entendidas como elemento nuclear dos estilos de vida - ou das maneiras - e, por conseguinte, como um dos meios através dos quais se produzem e reproduzem identificações e barreiras, sejam elas de tipo religioso, étnico-nacional ou de classe. Partindo de fontes arquivísticas e impressas relativas à alta aristocracia lisboeta entre os finais do século XIX e a primeira metade do século XX, é possível discernir como a alta cozinha francesa serve, por um lado, para demarcar essa classe do local - a cidade e o estado-nação em que vivem - para, por outro a situar num espaço social transnacional em que se inserem as classes que lhe estão próximas em termos de capital económico, cultural e social. O processo de construção da proximidade social com os mais distantes em termos geográficos é assim, em simultâneo, o processo que assegura a distanciação social face aos que se encontram próximos em termos geográficos, consumidores de uma cozinha menos dispendiosa, assente em recursos locais.

Nesta comunicação privilegiamos uma abordagem no âmbito da antropologia histórica, em que se recolhem contributos oriundos da antropologia, da história e da sociologia da alimentação e da cozinha, da geografia cultural e da sociologia das classes e dos estilos de vida.

Baralha e volta a dar - reflexão sobre práticas e discursos de pertença e mobilidade em São Tomé e Príncipe

Autor: Joana Areosa Feio (ICS-UL e CRIA)  email

Short Abstract

Em São Tomé e Príncipe actual, num contexto de profundas alterações estruturais, propomo-nos analisar negociações de processos identitários protagonizadas por pessoas de diferentes estatutos, a partir da observação e análise de encontros e convivências de certo modo inesperados.

Resumo Longo

São Tomé e Príncipe formou-se enquanto sociedade a partir de uma economia de plantação, baseada no trabalho escravo e de "contratados", que continuaram a chegar às ilhas em diferentes momentos do século XX. Estes viviam acantonados nas sanzalas das roças - muitos ainda aí vivem - por oposição aos ditos "filhos da terra", os forros; e aos angolares. Hoje, quase 40 anos após a independência política, várias mudanças estruturais se têm verificado, como as migrações das populações das roças para a cidade e bairros periféricos, assim como um movimento contrário (embora de pouca dimensão, mas que não deixa de nos interessar) entre forros e angolares com menos recursos que procuram trabalho nas roças; as emigrações e as imigrações; o turismo à escala global; um maior acesso ao ensino; a modificação do mercado de trabalho, surgem-nos como as principais mudanças a ter em conta e que contribuem para redefinições identitárias e estatutárias ao nível pessoal e grupal.

Interessa-nos reflectir, num contexto de mobilidade e mudança, sobre os processos identitários, nas suas variadas dimensões, negociados entre pessoas de diferentes estatutos étnicos (forros, angolares, ex.contractados como cabo-verdianos, angolanos e moçambicanos e seus descendentes) a partir da observação e análise de práticas [e discursos sobre] de convivência prolongada. Estes são encontros de certo modo inesperados e que vêm colocar em contraponto identificações supostamente mais fixadas, abrindo lugar a processos que nos dão pistas para uma análise mais diacrónica. Propomo-nos cruzar na análise um vasto leque de diferenciações, bem como reflectir sobre a natureza dos próprios lugares onde ocorrem os encontros e convivências.

Em louvor à Assunção: a festa quilombola como espaço de fronteira

Autor: Carla Águas (Centro de Estudos Sociais - Universidade de Coimbra)  email

Short Abstract

A presente comunicação parte do conceito de espaço de fronteira para analisar os fenômenos intersticiais ocorridos durante a festa de Nossa Senhora da Assunção – maior celebração do quilombo de Conceição das Crioulas, comunidade negra situada no sertão do Estado de Pernambuco, Brasil.

Resumo Longo

A palavra fronteira pode explicar o que separa os grupos sociais, mas também o que os une, sendo útil para se pensar sobre as relações culturais: todo ato cultural vive, essencialmente, nas fronteiras (Ribeiro, 2005). Portanto, o foco é retirado dos núcleos estruturantes da sociedade, para concentrar-se nos instáveis espaços intersticiais. Não há culturas puras - tudo se constrói na fronteira.

À luz deste conceito, o objetivo é analisar a celebração em louvor a Nossa Senhora da Assunção, maior festa do quilombo de Conceição das Crioulas - entendendo-se "quilombo" como a designação utilizada no Brasil para grupos sociais negros, com características étnicas, históricas e culturais específicas. A comunidade, situada no Estado de Pernambuco, realiza anualmente a sua grande festa, que inclui o ritual de passagem de testemunho: sob os acordes da banda de pífano, pequenos agrupamentos geograficamente dispersos trocam flores durante os dias de novena, de forma a selar a noção de uma coletividade mais ampla - a comunidade imaginada (Anderson, 1991). Os vínculos com o território, com a ancestralidade e com a alteridade são reafirmados, de forma a recriar performaticamente o quilombo.

This painel is closed to new comunicação proposals.